Nematoides: infestações ainda são subestimadas pelos produtores

Apenas com análise em laboratório é possível diagnosticar corretamente a espécie de nematoide presente no solo e planejar estratégias eficientes de controle

Imagine uma lavoura de soja com plantas de menor estatura, subdesenvolvidas, apresentando folhas amareladas e com manchas. À primeira vista, o produtor pode deduzir que faltam nutrientes no solo e essas plantas estão sofrendo por deficiência nutricional. Quando se observa a ocorrência de reboleira na lavoura, de fato as plantas estão com dificuldades para absorver nutrientes, água e se desenvolver, mas a razão disso pode ser a presença de nematoides atacando as suas raízes. Os nematoides parasitam o sistema radicular das plantas e se alimentam de seiva.

 

Prejuízos subestimados

De acordo com Andressa Machado, pesquisadora do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e agroespecialista do laboratório Agronema, os ataques de nematoides ainda são subnotificados nas lavouras brasileiras e os produtores geralmente têm dificuldade para driblar o problema. “Quando o produtor se dá conta que pode ser uma infestação de nematoide, ele já se espalhou pela lavoura. Falta conscientização e informação para o produtor entender que o nematoide é um problema sério e vai reduzir a produção em pelo menos 10%”, diz a agroespecialista.

Além disso, a má notícia é que, quando a reboleira está visível, nada se pode fazer para reverter a situação durante a safra. O controle só será possível visando os próximos cultivos na mesma área. “O nematoide não é como uma lagarta e a ferrugem asiática que o produtor aplica o produto e mata em uma safra. O nematoide é um problema sério e que está sempre presente, então precisa de vigilância constante”, afirma Andressa.

Embora existam no mundo mais de 100 espécies de nematoides, a sojicultura brasileira sofre perdas causadas por quatro gêneros mais populares, o nematoide de galha (Meloidogyne spp.), nematoide do cisto da soja (Heterodera glycines), a espécie que causa lesões nas raízes (Pratylenchus brachyurus) e o nematoide reniforme (Rotylenchulus reniformis). Cada espécie tem as suas particularidades de ataque, causa sintomas diversos e os nematoides reagem ao manejo de maneiras diversas, por isso, é fundamental realizar a identificação correta da praga.

 

Diagnóstico correto

Para combater o nematoide, o primeiro passo é investir em análise laboratorial e, de preferência, durante o florescimento da cultura para que seja possível estimar o potencial de dano e planejar o manejo. “O nematoide é um problema de difícil identificação. Se o produtor não fizer a análise no laboratório, não vai conseguir fazer o diagnóstico correto. Só conseguimos observar o nematoide com microscópio”, explica Andressa.

O produtor deve coletar cerca de 500 gramas de solo com a presença de raízes, sendo 10 a 20 gramas de raiz. “Recomendamos 5 a 10 pontos de coleta na lavoura para fazer uma amostra composta”, diz Andressa. A Rede AgroServices oferece vários serviços para a análise de nematoides que podem ser resgatados por pontos, confira todas as ofertas aqui. Em parceria com a Rede AgroServices, o laboratório Agronema oferece análise de nematoides e consultoria especializada, para fornecer receituário agronômico e um acompanhamento de manejo no longo prazo.

O laudo técnico do laboratório fica pronto em até 10 dias úteis. No entanto, nem sempre é possível realizar o procedimento por causa de dificuldades no processo de amostragem. “O principal erro nas amostras é quando o solo vem para o laboratório com torrões e muito seco ou quando o produtor coleta após chuva forte e o solo está encharcado. Nos dois casos não vamos conseguir identificar o nematoide”, diz Andressa. De acordo com a agroespecialista, em amostras de solo seco os nematoides morrem enquanto que o solo muito úmido favorece a proliferação de fungos e bactérias que comprometem a análise laboratorial.

 

Manejo eficiente

Existem várias soluções disponíveis para o controle de nematoides, como a aplicação de nematicidas, rotação de culturas com espécies como a crotalária, escolher variedades resistentes e investir em tratamento de sementes. No entanto, cada estratégia tem uma finalidade e só surtirá efeito se escolhida de acordo com a identificação correta da espécie de nematoide presente no solo. “Falta muita informação sobre nematoides. Infelizmente é comum encontrar várias espécies em um mesmo talhão e, muitas vezes, o produtor generaliza o problema e acha que com uma única ferramenta de manejo vai conseguir controlar todas as espécies”, alerta Andressa.

O combate à praga também precisa ser integrado ao manejo de solo. “Os danos com nematoides são maiores onde o solo está desgastado e mais pobre. O produtor que não faz um bom manejo do solo vai ter mais perdas. Ele tem que equilibrar, melhorar a estrutura do solo, a condição biológica e fazer rotação de culturas. Se o solo está bem equilibrado e a planta está bem nutrida, mesmo que o nematoide ataque ela não vai sofrer tanto”, explica a agroespecialista.

Segundo Andressa, é essencial combater a praga pensando em sistemas produtivos e não deixar de olhar para o milho safrinha. “O milho tem muita raiz e se comporta melhor ao ataque, por isso o produtor não se preocupa tanto com nematoide no milho, mas geralmente os nematoides presentes na soja também estarão no milho, algodão e feijão. A soja é mais sensível, em um caso extremo eu já vi perdas de 80% na soja”, diz Andressa. Segundo ela, o algodão também é bastante sensível ao ataque de nematoides e pode registrar perdas de 40%, enquanto que o milho tem prejuízos em torno de 10%.

É recomendável identificar as espécies de nematoides presentes no solo durante a safrinha para planejar os cuidados na safra de soja com antecedência. Segundo Andressa, o tipo de solo e o nível de infestação determinam a estratégia de combate à praga. “Podemos recomendar as melhores ferramentas e, quando o produtor for fazer o cultivo da soja, já pode direcionar o manejo para um tratamento de sementes, escolher variedades resistentes para algumas espécies de nematoides e fazer um controle mais eficiente.”

 

Isole a área infestada

Também é fundamental isolar os talhões infestados, redobrando cuidados de limpeza das máquinas após as operações ou trafegar nessas áreas sempre por último. Andressa lamenta que essas práticas ainda não sejam respeitadas pela maioria dos agricultores. “Por mais que a gente fale que o nematoide está presente no solo e aderente no pneu do maquinário, os produtores dizem que não têm tempo de lavar a máquina”, conta a agroespecialista. “Os nematoides se disseminam muito pelo solo e o maquinário vai levando a praga de um talhão para o outro.”

Os produtores subestimam o ataque da praga especialmente no Paraná, estado que apresenta solos mais argilosos e com elevado nível de matéria orgânica. Segundo Andressa, nos solos paranaenses as produtividades se mantêm em torno de 50-60 sacas de soja por hectare, o que ajuda a disfarçar as infestações de nematoides. “Não observamos muitos sintomas na parte aérea da planta e os produtores dizem que não têm esse problema no Paraná. Mas, mais de 60% das amostras que recebemos têm presença de nematoides e de espécies variadas”, diz Andressa. Além disso, a maioria das amostras são enviadas por cooperativas ou consultores, outra prova da subnotificação. “Chegam poucas amostras de produtores, eles não conhecem muito o problema no Paraná”, diz Andressa. “Já o produtor do Cerrado entende melhor os prejuízos porque o nematoide é um problema mais visível na região.”


SE LIGA NO AGRO!

6 dicas para combater os nematoides

- Envie amostra para análise em laboratório

- Escolha o manejo correto para a espécie

- Invista em variedade de soja resistente

- Aposte em tratamento de sementes

- Aplique nematicida se necessário

- Invista em rotação de culturas e manejo de solo

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COPYRIGHT © REDE AGRO S.A - Última atualização: 12/07/2019 (1.0.2987)